Como cidadão interessado e empenhado no futuro do meu
País, não posso deixar de me indignar com as
notícias que têm vindo a público referenciando
o fim das transferências de subsídios do estado para
as IPSS com ATL. Vamos por partes: IPSS: Instituições
Particulares de Solidariedade Social. Descodificando, são
todos os organismos civis que se dedicam a causas sociais,
complementando ou suprindo necessidades da comunidade que por
motivos vários (falta de dinheiro, incúria,
desconhecimento, ignorância), não se encontram
abrangidas pelos organismos estatais. Como exemplo temos: creches e
jardins de infância, ATL-Actividades Tempos Livres para
ocupação das crianças após as aulas e
enquanto os pais não chegam a casa, actividades ocupacionais
para Séniores (terceira idade), lares para deficientes,
entre outros. Os ATL destinam-se a receber e ocupar com actividades
lúdicas, as crianças que frequentam o ensino escolar
obrigatório e que, no fim das aulas, não têm
para onde ir. Hoje, são poucos os pais que se podem dar ao
"luxo" de ir buscar os seus filhos a meio da tarde, todos os dias,
para os levar a casa, ou de lhes proporcionar um local para
almoçarem quando não existe cantina na escola (o que
ainda acontece em muitos locais). As actividades profissionais, a
distância de casa para os locais de trabalho, o
trânsito, a enorme ocupação e frenesim dos
nossos dias, levam a que muitos pais não consigam chegar a
tempo de buscar os filhos e os levarem para casa, antes da 19:30,
20 e por vezes mais tarde. O mesmo se passa de manhã: para
que possam chegar a horas aos seus (cada vez mais escassos)
empregos, precisam de sair muito cedo, bem antes da abertura das
escolas. Os ATL proporcionam uma forma económica (são
subsidiados e os pais pagam em função dos seus
rendimentos), segura e eficaz de resolver este grave problema que
atormenta as famílias com crianças a estudar. O nosso
actual Governo, de forma "brilhante e inteligente" (note-se o tom
sarcástico) achou que poderia poupar mais uns
tostões, deixando de financiar as IPSS, no que respeita aos
ATL, mantendo as escolas abertas por um período de tempo
maior. Nada a opor. O único problema é que vem tarde:
a sociedade civil teve de se organizar, criar as ditas cujas IPSS e
resolver a questão pelos seus próprios meios. Assim,
hoje existem muitos ATL por esse país fora que vivem
à conta dos subsídios que recebem da Segurança
Social. Como estas transferências só cobrem parte das
despesas, têm de recorrer à imaginação
para arranjar o dinheiro para pagar os ordenados das educadoras,
auxiliares de acção educativa, cozinheiras,
alimentos, electricidade, gás, etc. São muitas
pessoas já a trabalhar nestes organismos que se encontram em
risco de ficar no desemprego. As crianças irão para a
rua, pois não há garantias que o Estado consiga fazer
melhor que a comunidade. Nem mais barato... Durante alguns anos de
experiência em que os meus filhos (hoje já grandes)
"habitaram" um desses ATL que agora o governo, supostamente, se
prepara para encerrar, aprendi que existem pessoas capazes de tudo,
até (quase!) roubar, para proporcionar aos outros algum bem
estar. O dito cujo ATL funcionava das 7.30 da manhã
até às 8 da noite (!) permitindo aos pais que
trabalham duramente e que não têm outra
hipótese que não seja "despejar" os seus filhos
nestes locais e ir buscá-los já muito tarde.
Aconteceu-me algumas vezes ficar preso no trânsito e pedir
para esperarem mais um pouco, para lá das 20.30...
Serviço este prestado por auxiliares de
educação com um salário ridículo, assim
como as educadoras, que no entanto ainda encontravam tempo para
fazer vários espectáculos para os pais, pelo Natal,
Carnaval, Páscoa,fora de horas (à noite e fim de
semana) com as crianças, mesmo prejudicando as suas vidas
particulares, e sem ganhar mais por isso. Uma
instituição em que o Presidente, já avô,
depois de a ter criado para auxiliar os filhos, agora trabalha para
os netos. Ah, a pessoa em questão, para além de
não ganhar nada, ainda tem de gerir o seu pequeno
estabelecimento comercial, dedicando-se à gestão da
IPSS nas suas (poucas) horas livres e ainda pagando do bolso o
combustível e as inúmeras chamadas para
telemóveis. São estes os ATL que querem fechar?
Depois de terem substituído (com sucesso) os pais
trabalhadores, que neste mundo árduo e sem regras, trabalham
8, 10, 12 horas por dia, com dificuldades, saindo de casa de
madrugada para enfrentar o trânsito e regressam ao fim do
dia, já noite dentro, sem possibilidades de ir mais cedo
buscar as crianças nem lhes proporcionar desporto,
acompanhamento nos estudos e trabalhos de casa, actividades
lúdicas como teatro, música, informática, a
não ser com o recurso a estes ATL, por um valor reduzido. Eu
já tenho o meu problema resolvido: os meus filhos já
regressam para casa depois das aulas sozinhos e não
necessitam deste acompanhamento. Mas tantos e tantos que
irão ficar na rua...e as centenas, senão milhares, de
pessoas que animam estes espaços? Educadores, auxiliares,
cozinheiros, motoristas...vai tudo para a rua? Afinal o desemprego
já não é apenas nos texteis nem nas
fábricas de calçado. Acho que é
necessário criar um movimento de fundo que mostre a este
governo que terá de encontrar outros locais para poupar e
reduzir o défice: no exército, nas mordomias dos
governantes, nos assessores dos senhores deputados, nos brutais
desperdícios existentes na administração
pública. Agora, não venham destruir as obras privadas
de dezenas de milhares de pais e amigos, que pedincham computadores
velhos, camas e colchões usados, brinquedos em segunda
mão, voluntários para ajudar, gente para pintar e
recuperar os edifícios, que passam rifas (ilegais) e
promovem festas e campanhas de angariação de dinheiro
para compensar as despesas e a fraca participação do
estado. Não! Há que dizer BASTA. João
Emílio Almeida
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Data de criação : 07/11/02 Última actualização : 08/06/15 23:44 / 52 Artigos publicados
fim das ipss Inserido Thursday 13 December 2007 16:05
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Todos os comentários feitos ao artigo :
fim das ipss
-
Tenho um filho a frequentar uma creche subsidiada (IPSS) e soube hoje de uma petição contra o fim dos subsidios, patrocinado pela CNIS (Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade - http://www.cnis.pt/) disponível em: http://www.solidariedade.pt/sartigo/index.php?x=3087
vitor
Wed 23 Jan 2008 22:18